quinta-feira, 18 de agosto de 2011

THUNDERBIRD - Capítulo Nove

"Você está sempre por perto"
(06/1977)


Era apenas uma garota de 14 anos. Tinha maquiagem puxada, enchimento de papel e bota de salto para aumentar a idade. Usava uma calça preta colada e a blusa era uma bata vermelha bem longa. Era noite, e hora de sair para se divertir na cidade, assistir shows em clubes com os amigos. Apesar do veto da mãe, a regra paterna era clara: ela poderia fazer o que quisesse, desde que tirasse notas boas na escola.

De repente, uma menininha de camisola e pantufas aparece em um canto e desce as escadas da casa. Ela segurava uma boneca de pano e invadiu o banheiro onde a moçoila se arrumava:
_ Você não pode sair!
_ Valentina, vai dormir. - Sadie derrubou o blush.
_ A mamãe não gosta quando você sai de noite. - respondeu, aflita.
_ Mas o papai deixa. Agora, vá dormir.
_ Mamãe! - gritou.

Ginna Bunker atendeu ao chamado e surgiu diante das duas. Após relembrar o limite de horário, pegou Valentina pela mão e retornou ao andar superior da residência. Sadie aguardou alguns segundos antes de sair correndo para a porta. Com passos cautelosos ela se distanciava cada vez mais do seu quarteirão de origem. Um ruído de motor chamou sua atenção. Um veículo vinha se aproximando à frente. 

Os faróis foram abaixados e a buzina do Fusca negro soou. Ansiosa, Sadie entrou no carro e sorriu:
_ Tome cuidado com os cabos e o baixo do Kelly. - avisou Drew Forsyth, antes de cumprimentá-la com educação.
_ Olá Drew e Kelly. - os dois se sentavam nos bancos da frente. - Onde está o kit de bateria?
_ No porta-malas.
_ Vocês a enfiaram lá como?
_ Calma, Sadie. O máximo que pode acontecer é quebrarmos o kit e perder o show de hoje. - Kelly Garni deu um soquinho no ombro do baterista, que fez uma careta.

A banda Quiet Riot não possuía equipe de som. Os próprios integrantes montavam e verificavam tudo sozinhos. Kelly, Drew e Sadie passaram pelos fundos do clube noturno e adentraram o pequeno palco, oculto por cortinas escuras. Lá finalmente se juntaram ao resto da turma: Kevin DuBrow, Randy Rhoads e a namorada dele, Jolie. O cantor foi o primeiro a aclamar a presença da convidada:
_ Sadie! - Kevin gritou, levantando-a. - Gostei do visual.
_ Obrigada. - respondeu, acenando para Jolie. - Onde está Randy?
_ Acho que... no carro!


A garota saltou para fora e logo avistou o velho GTO cinza. Porta-malas aberto, portas escancaradas, faróis acesos e um rapaz de cabeleira longa e muito lisa segurando um cigarro. Ele alisou uma parte dos cabelos atrás de uma orelha e puxou fumaça para dentro. Só aí Sadie se aproximou mais. Randy trajava uma combinação de colete rosa com bolinhas brancas, gravata borboleta e calça boca-de-sino da mesma cor de base.

_ Está precisando de algo? - ela perguntou baixinho.
_ Na verdade, sim. - Randy se levantou. - Tenho que levar minha guitarra e amplificador, mas tenho medo de deixar o carro sozinho e... - ele parou de falar.
_ Quer que eu leve alguma coisa?
_ Gentileza a sua. - disse, entregando cuidadosamente a caixa de sua guitarra Les Paul.

O guitarrista retirou o amplificador, trancou o carro e acompanhou-a:
_ Sabe, você está sempre por perto.
_ O que isso quer dizer, Randall?
_ Sendo a mais nova de todos, você poderia se interessar por outro tipo de gente.
_ Eu não poderia ter uma turma tão divertida como essa.
_ Hum. - ele murmurou, antes de sorrir.

Sadie estava relativamente surpresa naquele momento. Eram raras as vezes em que conversava com Randy abertamente. Ele costumava levar a relação professor-aluno muito a sério. Ensinava todas as quartas e sextas violão e guitarra acústica à menina. Além disso, a dupla era a mais quieta do grupo, embora Kevin despertasse um espírito brincalhão e piadista no loiro.

Jolie e Sadie escolheram um espaço próximo ao palco e assistiram ao show. Os quatro rockeiros deram tudo de si e divertiram a plateia. A bateria era presente e pulsante, o baixo preciso, a guitarra fascinante, o vocalista animadíssimo! Uma performance cativante. Ao final, aplausos vinham de todos os lados imagináveis. A banda agradeceu e sorriu debaixo do único holofote.

Depois da apresentação, as convidadas ajudaram os músicos sonhadores a guardar o equipamento.
_ Acho que minha roupa rasgou... - Drew exibiu uma coxa, comprovando a afirmativa.
_ Nós detonamos! Vamos sair e tomar umas cervejas! - berrou Kevin, sem camisa.
_ Eu topo! - disse Kelly.
_ Tenho que ir para casa. - Sadie se encolheu.
_ Eu também. - denunciou Jolie.
_ Fica para outro dia, estou exausto. - Randy enxugava o suor do rosto. - Vou levar as meninas e cair na cama.

Randy dirigiu com o rádio ligado, comentando que mal podia esperar para ter atenção das gravadoras, escutar as músicas do Quiet Riot pela cidade, ver seu álbum em todas as lojas, e outras 'zilhões' de coisas que toda banda esforçada merece. Randy investia seus sonhos e acreditava que eles teriam êxito. Randy Rhoads queria viver de música.

Kelly; Drew; Kevin; Randy
Graféas

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

THUNDERBIRD - Capítulo Oito

Kelle e Kathy
(06/11/1981)


A senhora Delores Rhoads era mãe de três crianças, que criou sozinha. Kelle, o mais velho, se tornou professor de música e piano clássico. Kathy, a irmã do meio, se casou com o dono da empresa vinícola D'Argenzio, passando a trabalhar no ramo. Randy era o caçula e eterno bebê da família. Os três eram muito unidos e cresceram sem uma figura paterna. 

Os pais de Sadie sempre viveram harmoniosamente bem. O emprego de bancário de Paul sustentou tranquilamente sua mulher Ginna, e as necessidades das três filhas geradas. A família Bunker era conhecida por ser disciplinada, educada, perfeita. Só nas aparências. No fundo, Sadie tinha ciúmes da família Rhoads. Eles eram mais afetivos e confiavam mais uns nos outros.

Randy combinou um piquenique no final de semana. O programa contaria com a presença de seus irmãos e Sadie se apresentaria oficialmente como sua namorada. O local seria um parque no bairro onde tinha nascido, Burbank, nas proximidades de Los Angeles. Eles se encontrariam previamente na escola Musonia, onde Kelle dava lições de canto no momento, e aguardavam Kathy chegar com sua filha de apenas um ano, Breanna. Randy era apaixonado pela sobrinha. Enquanto não chegavam, ele decidiu fazer outra sessão acústica com Sadie:
_ Você leva esse violão para todo lado. - Ela disse, enquanto o músico ria.
_ Vamos para minha sala, lá tem outro para você tocar.
_ Com você não tem graça! - brincou.
_ Por quê?
_ Randall, você é mil vezes melhor do que eu.
_ Não existem músicos melhores ou piores. - ele segurou uma das mãos da acompanhante e os dois se dirigiram à sala.

Cerca de quinze minutos de improvisos e pernas roçando umas nas outras, escutaram Kathy no corredor e terminaram a sessão. Em certo momento, Kelle e a outra irmã chegaram à porta da sala , alegres, esperando um abraço. Randy pegou a pequena Breanna no colo:
_ Lembram da Sadie?
_ Vocês terão aulas de novo? - indagou Kelle.
_ Ah, mais ou menos.
_ Todos prontos para o piquenique? - Kathy estava animada.

Randy mexeu a cabeça, sinalizando que sim. A bebê gargalhava, puxando seus cabelos loiros. Kelle infelizmente não participaria do plano, tinha mais compromissos com o trabalho. O jeito era contar a novidade apenas à Kathy, que repassaria a quem fosse necessário apenas.


A grama do parque era verdinha e baixa. Um lençol quadriculado clássico fora estendido e recheado de petiscos. Os três colocavam a conversa em dia, e Randy acariciava discretamente os ombros da namorada. Ele só precisava escutar uma pergunta. De repente, Kathy exclamou:
_ Onde está Breanna?
_ Lá. - Sadie apontou. A pequena cambaleava pela grama, não muito longe de onde todos estavam. Kathy se levantou e foi buscá-la.
_ Como ela não vê? - Randy não aguentava mais.
_ Por que não conta logo?
_ Não é tão fácil quanto parece, Sadie.

Quando Kathy voltou, Randy e Sadie estavam levianamente mais próximos, quase abraçados, cochichando. Ela tinha a ideia de que os dois formariam um casal em sua cabeça, e haviam evidências claras o bastante para confirmar sua hipótese:
_ Então, vocês estão juntos. - ao escutar, Randy ficou vermelho. - Ora, Randy, vocês não precisam se envergonhar. Desde quando?
_ Desde que ele voltou.
_ É complexo. - o guitarrista adicionou.
_ Vocês dois são uma graça... por que não jantamos com mamãe para comemorar? Sadie é parte da família agora.

À noite, a casa da senhora Delores estava relativamente cheia. O jantar saciou os ocupantes de todas as sete cadeiras, incluindo Kelle e o marido de Kathy, Raymond. Logo que Breanna caiu no sono, a residência foi se esvaziando, até sobrarem apenas Randy e Sadie. A super mãe chamou a convidada para ajudá-la com as louças, enquanto o astro musical assistia televisão. Com uma ponta de ansiedade, ela atendeu ao comando e se dirigiu á bancada da pia. Com um pano, foi secando cada prato, cada copo.
_ Meu filho diz que está feliz. Ele diz que é por sua causa. - Sadie estremeceu e continuou a escutar. - Gostaria de saber se tem certeza da sua escolha, em relação a ele.
_  Senhora Rhoads, eu amo Randy. Amo muito.
_ Espero que sim.

Delores queria apenas que seus filhos vivessem uma boa vida. O jantar e a conversa ajudaram a clarear seus  pensamentos sobre Sadie. Havia uma grande diferença entre o amor verdadeiro e fanatismo exacerbado. Randy não entendia o motivo da divergência das duas e ainda mais o fato de Sadie se sentir intimidada. Ela era precisamente a única pessoa que não se relacionava bem com Dee, assim apelidada por todos que a adoravam.

Eram 10 da noite quando finalmente chegaram ao casarão do guitarrista. Sadie mais uma vez pegou uma blusa emprestada para usar como pijama. Randy estava sentado em sua cama, com um papel e lápis na mão, compondo. Sadie estava à beira da porta, usando nada mais que sua blusa e peça íntima:
_ Precisa de mais alguma coisa? - indagou Rhoads, observando-a.
_ Na verdade sim.
_ Diga.
_ Preciso de você, Randall. - ela provocou, caminhando em direção a ele.

Randy puxou-a para um lado da cama e debruçou sobre ela. Pareciam duas crianças à medida que rolavam e gargalhavam. O tipo físico magrelo de Randy não incomodava nem um pouco. A cada toque eles se tornavam cada vez mais inseparáveis. Suas almas tornavam-se apenas uma. A mágica que acontecia ali era cega, era uma paixão genuína.


Graféas