Let's get wild tonight
(30/10/1981)
(30/10/1981)
De repente, as ruas de Los Angeles começaram a ser cobertas por abóboras customizadas. O feriado de Halloween teve seu início, preenchendo a cidade com famílias inteiras enfeitando as vizinhanças. No centro, as luzes das edificações ganharam cores diferenciadas e os parques também foram adaptados ao clima sinistro que estava no ar. Percebia-se um movimento intenso nas confeitarias e lojas de guloseimas. Aquele ano seria bom para as crianças, ansiosas para atacar com suas cestas e preparadas para possíveis travessuras.
Na manhã seguinte, uma caixa de doces foi deixada à porta de Sadie. A assinatura dos pais vinha de uma foto, e não de um bilhete como era de se esperar. No registro ela devia ter uns dois anos. Usava um vestidinho de cetim, a franja estava torta e suas expressões eram chorosas. Ela não sabia ao certo se aquilo era um presente ou um aviso de que não era ignorada na escala que imaginava. Mais tarde, Hope sugeria incansavelmente um jantar caro num restaurante e de convidados, ela, o marido, a filha e Valentina apenas.
Valentina, curiosa como sempre, pressionou a irmã até arrancar seus verdadeiros planos de suas entranhas. A tortura tinha um sabor inenarrável para a caçula.Descobriu que na verdade, Sadie iria ao show de Ozzy Osbourne à noite. Ela suplicou para que Hope não ficasse sabendo. Depois do episódio de abandonar o trabalho para comparecer ao ensaio da banda, sua aprovação por Randy foi reduzida ao tamanho de uma noz.
No início da tarde, Sadie recebeu dois telefonemas, de Kelly Garni e Drew Forsyth. O baixista e o baterista, respectivamente, formavam o grupo Quiet Riot junto a Randy e ao antes mencionado Kevin DuBrow. Algumas memórias foram revividas durante as ligações. Em suma, sua vida era assim: Sadie estudava e corria ao encontro da banda, todos os dias. O fato dos dois terem feito as ligações num espaço curto de tempo foi uma coincidência estranha. De todo o jeito, ela precisava daquelas lembranças hilárias para alegrá-la. Como o dia em que os quatro rapazes resolveram trajar vestidos e pregar peças nas pessoas dentro de um estúdio.
(Trágico: Randy rodando bolsinha.)
Algumas horas depois foi a vez do interfone do condomínio tocar. O porteiro foi direto:
_ Tem uma pessoa querendo ver você.
_ Essa pessoa tem nome?
_ Ela...ou melhor...Ele! Ele diz que é Randall.
_ Deixe-o entrar.
_ Mas senhorita Bunker...
_ Apenas deixe entrar, e diga para não bater na porta.
Randy foi puxado com ferocidade para dentro. Caiu sentado no sofá da sala e foi recebido com amassos. Sadie se sentia felicíssima e quando se deu conta do que fez, deu espaço suficiente. Ele se recuperava do ataque:
_ Eu ia perguntar como você está.
_ Estou ótima!
_ Percebe-se. - Randy riu.
_ Está com fome? Posso fazer torradas.
_ Hoje você não precisa se preocupar com isso.
_ Oh, você se lembrou. - respondeu ela, em tom de ternura. - A que horas é o show?
_ 9 da noite, mas todos devem estar lá às 7.
_ Randall, ainda faltam duas horas. O que pretende fazer até lá?
_ Me diz você...
_ Acho melhor sairmos daqui. Minha irmã Hope mora bem em frente, e não quero que ela saiba.
Os dois ficaram no casarão montando miniaturas de trens até a limousine chegar. Era a primeira vez que Sadie entrava em um carro de luxo. A banda inteira estava lá dentro, conversando e bebendo. Porém, enquanto a maioria se saciava com metade de uma lata, Ozzy Osbourne já tinha entornado na garganta uma garrafa de gim. Sharon atirou outras duas pela janela do veículo, e ficou furiosa:
_ Você tem um show hoje a noite!
_ Foda-se. - Ozzy retrucou.
_ Bêbado fodido! Trate de se recuperar!
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| Ozzy Osbourne |
O palco não tinha nada de espetacular. Tudo foi planejado para que a atenção fosse voltada apenas para os músicos e as canções. O auditório era preenchido com cada vez mais fãs, impacientes, gritando por Ozzy Osbourne antes mesmo do show começar. Enquanto a banda esperava a chamada definitiva para subir ao palco, Randy e Sadie sentaram-se em um sofá. De uma bolsa enorme, ele retirou um isqueiro e um cigarro, e o acendeu. No colo dela foi posta uma caixinha de formato elíptico:
_ Você não vai abrir?
Sadie puxou uma corrente fina e dourada de dentro da caixinha. Muito surpresa, agradeceu:
_ Randall... não sei o que dizer. Onde achou?
_ Minha mãe que encontrou. Estava debaixo da cama do meu antigo quarto.
_ Isso ficou uns bons anos perdido. - ela comentou, enquanto Randy fechava o acessório em sua nuca.
De todos os presentes, nenhum se comparou à performance da banda naquela noite. Uma energia sem igual dominou a todos que presenciaram o evento. Randy se destacava à medida que seus solos eram executados ao longo da noite. Evidentemente ele se esforçou de uma maneira sobrenatural para que seu trabalho saísse próximo da perfeição. Sadie passou a admirar Randy mais do que já fazia, ela o amava por seus atributos artísticos e além de tudo amava quem ele era por dentro.
_ Vamos para minha casa. - disse Randy, depois do espetáculo.
_ Não posso. Prometi não sumir. - Sadie lamentou.
_ Tudo bem. - os dois se beijaram. - Fica para outro dia.
A limosine deixou-a na porta do condomínio. Estava frio e ventava. Calmamente, chegou ao seu apartamento. Em uma parede, havia um quadro com uma pintura. Presente de Hope. Era um vaso com rosas amarelas, nos quais eram as preferidas de Randy. Valentina estava apagada em cima do colchão no qual costumava dormir. Sadie puxou os cobertores para aquecê-la e caiu em sua cama.Aos poucos, as memórias do show foram se resguardando. O escuro do quarto a envolveu, fazendo-a adormecer.
Graféas


