sábado, 25 de dezembro de 2010

Romance de estrela cadente.

 Em 1977, Karol Fox era uma mulher robusta e bela. Tinha cabelos negros, cacheados e longos. Sua pele era suavemente tostada e o batom vermelho vivo cobria seus lábios carnudos.Totalmente independente da família, ela viaja por todos os Estados Unidos para fazer novos amigos e fazer o que mais gosta: tocar bateria. Seu negócio se baseava apenas em arranjar contratos com redes de hotéis e tocar todas as noites durante o jantar dos hóspedes.

Na maioria daz vezes a banda contratada era boa, fazendo com que as noites de trabalho fossem também prazerosas. Uma coisa que ela não suportava era o setlist. O gerente do hotel só pedia jazz e baladas. Karol sempre dava um jeito de tapear a banda, adicionando coisas do seu gosto. Por mais que descontassem de seu pagamento, músicas do Kiss eram uma obrigatoriedade de corpo e alma.

Estava atracada na cidade de Baltimore há 2 meses. O pessoal de lá era fã do bom rock n' roll, o que permitiu sua estadia por mais tempo. O Pier Five era um local acolhedor e digno da música tocada por Karol. O dono reuniu os músicos e deixou a baterista no controle do show, a própria banda dona de seu coração estava na cidade. Provavelmente no Pier Five. Senhorita Fox arregalou os olhos, aparentemente satisfeita.

O salão encheu cedo. Adiantando o show que acompanhava o jantar. Karol se concentrou para executar as batidas da forma mais perfeita possível. Em certo momento, seus olhos captaram um grupo de quatro homens se sentando em uma das mesas. Dois deles já chamavam um garçom. Logo que a apresentação terminou, ela e a banda receberam muitos aplausos. A cortina se fechou e ela saiu quase correndo para o salão. Infelizmente, ela não pode mais ver aonde aqueles homens foram. Tinha certeza que era o Kiss, ou pelo menos era isso que seu delírio denunciava.

Decepcionada, sentou-se em um dos bancos do bar no salão. O batender deixou um drink sem delongas. A bebida era transparente, e a tira de casca de limão era amarela como um canarinho. O movimento espiral fixou a atenção de Karol por alguns segundos, até que escutou uma voz extremamente peculiar:
_ Hei, pode me passar uma garrafa de cerveja?
_ Nome? - perguntou o batender.
_ 'Err'... Anote o quarto apenas.
_ Ok. Quarto?
_ 86. - respondeu o estranho, sorrindo ao ouvir o estalido da garrafa sendo aberta.

Karol simplesmente não sabia porque estava observando. Talvez fosse a voz dele. Fina, meio irritante. Talvez fosse o sorriso, puro e agradável. De todo jeito, descuidou-se com aquela curiosidade. O homem percebeu, e soltou uma risada gentil:
_ Você está bem?
_ Ah...? O quê? Poxa, me desculpe. Me desculpe mesmo.
_ Calminha aí...Você nem fez nada.

Sem razão nenhuma aparente, Karol passou os dedos através dos longos cabelos do homem, e o beijou:
_ Agora eu fiz. - respondeu.
_ Quantos drinks desse você tomou? - ironizou ele. - Qual é seu nome?
_ Karol...Fox. O seu?
_ O meu? Você não precisa saber o meu. - Karol investiu contra seus lábios novamente. - Frehley, Ace Frehley.

Os olhos da garota brilharam como uma estrela naquele momento. Suas bochechas coraram também. Apesar do fato de terem se conhecido apenas alguns minutos atrás, Ace puxou-a pelo braço e a levou para o andar de seu quarto. Entrou junto a ela,  em um saguão privado. Lá o guitarrista 'espacial', como era conhecido, apresentou os outros três integrantes. Gene Simmons e Paul Stanley conversavam dentro de uma jacuzzi, acompanhados de outras garotas. Peter Criss berrava ao telefone, para quem quisesse ouvir:
_ Não Lydia, não estamos fazendo bagunça. Não Lydia, não vou colocar nosso casamento em risco.

 Karol achou aquilo uma loucura. Ace não mencionou nada parecido com "vamos para o quarto", ofuscando suas verdadeiras intenções. Os dois apenas se sentaram em um sofá confortável, e bateram um papo caprichado sobre música. Ele havia se lembrado que ela fazia parte da banda do hotel. Depois, ariscos como esquilos, se beijaram algumas vezes. Não se agarraram:
_ Esquisito. - Ace comentou.
_ O quê? - Karol perguntou.
_ A química não aconteceu, mas eu gostei de você. Quer ir ao show esta noite?
_ Adoraria.

Uma experiência única, desde a etapa no qual a banda se maquiava e desenhava as personas em seus respectivos rostos. Paul Stanley foi o primeiro a terminar, foi ágil com a estrela em seu olho direito. Ajeitou o roupão, pegou o kit e desenhou um coração em volta de um dos olhos de Karol. Peter Criss, com o felino inacabado no rosto, brincou fazendo uma pinta no nariz dela. Gene Simmons, o baixista cuspidor de fogo, imitou o jeito no qual cobria os lábios, com um batom negríssimo. Ace Frehley, ora focalizava em sua maquiagem prateada, ora tirava fotos com Karol e a banda.

O show fora espetacular. Ace Frehley foi o primeiro a lavar o rosto. Saiu antes dos outros três integrantes do Kiss, levando a visitante consigo. De volta ao hotel, agora dentro do quarto do guitarrista, eles tentaram mais uma vez "engatar a marcha da paixão". Sentados na cama, se olharam tão profundamente que quase paralisaram. Trocaram mais beijos, abraços e risadas discretas. Karol estava quase lançando suas sandálias para longe quando a faísca de excitação acabou, para os dois:
_ Droga, o que está acontecendo conosco?
_ Por um minuto, achei que eu tinha me apaixonado. - revelou ela.
_ Cara, eu também. Mas durou tão pouco, tão pouco. - ele não riu.
_ Foi como um relâmpago.
_ Eu tive essa sensação duas vezes hoje. A primeira, foi quando você me fez dizer meu nome. A segunda foi agora.
_ É como uma estrela cadente.Intensa, brilhante, e desgovernada. Não percebemos de onde vem o brilho até o momento em que ele vai embora, em busca de outros céus para riscar, em busca de outros amantes para enganar.


 Graféas

sábado, 18 de dezembro de 2010

Babá por um dia

_ Você não tem jeito mesmo Paul. - Steve Harris dava  risadinhas. - de quantos bares você vai ser expulso antes mesmo do show?
_ Sabe como é Steve, diversão não tem hora. - Paul Di'anno respondeu, sem graça, ao telefone.
_ Tem hora sim. Iron Maiden não é uma brincadeira. Temos nosso primeiro álbum rodando.
_ Ok, você venceu. Vou tentar causar menos confusão, vou tentar!

O baixista não engolia aquilo. Di'anno não era capaz de ficar sóbrio nem por uma semana. Ele queria continuar  falando, na espera de uma faísca de esperança na consciência do rebelde vocalista. Era incrível a capacidade que ele tinha de se desligar da conversa:
_ Paul ? Está prestando atenção?
_ Desculpe cara. Eu juro que estou ouvindo um barulho na minha porta.
_ Ligo outra  hora.

Num salto Di'anno atravessou sua humilde casa, até a porta da frente. Ele não morava em um bairro bom de Londres. Qualquer acontecimento ali era tratado com indiferença. Porém, pelo menos do ponto de vista de Paul, escutar grunhidos e outros sons de uma caixa deixada à sua porta não era uma situação tão normal.
Era um bebê. Um ser humano indefeso, careca, sem dentes, com estoque infinito de baba. A caixa era grande, retangular, e aberta. Ele simplesmente se mexia lá dentro, gemendo inconformado.

Paul observava o pequeno como se fosse um alienígena. O que ele iria fazer? Por que logo em sua casa? De todo jeito, a única certeza era que ele iria se encrencar de novo. Deu alguns passos para fora, e a rua estava deserta. "Pelo menos ninguém vai ver esta cena", pensou. Com uma vassoura, ele puxou a caixa para dentro de casa. No mesmo momento a criança começa a chorar.

No desespero, ele agarrou o telefone e ligou para o baterista de sua banda, Clive Burr. Ele não tinha a mínima noção do que fazer com um bebê, ainda mais quando este está berrando:
_ Alô?
_ Clive ! Clive, que bom que atendeu.
_ Paul, o que você quer? - disse ele pausadamente. - e que droga de barulho é esse?
_ É um bebê cara, deixaram na minha porta.
_ Como assim um bebê? - Clive gargalhava.
_ Ele está dentro de uma caixa, e não pára de chorar. - Di'anno deu um pigarro alto, sem resultados. - Pare de rir, eu não sei o que fazer!
_ Primeiro, tire-o de dentro da caixa. Depois, veja se ele se cagou. Bebês choram ou porque estão com fome ou porque sujaram a fralda. - Clive ainda não conseguia segurar os risos.
_ Ok, vou fazer isso.
_ Não posso te ajudar mais que isso campeão. Saiba que vou te lembrar disso pelo resto da vida, adeus.
_ Muito engraçado.

Paul Di'anno levantou o pequenino pelos braços, que continuava a chorar. Sentiu um mal cheiro, e levou a criança ao seu banheiro. Como ele tinha de se virar, achou mais fácil  dar banho no bebê como se ele fosse um cachorro. Em horas como essa é que o instinto se faz presente, mesmo com um pouco de repulsa. "Situação embaraçosa", murmurava o cantor, e pelo menos, o choro tinha cessado.Ele precisava de alguém para comprar fraldas e comida para bebês. Se tinha uma coisa que ele havia aprendido na vida era não deixar crianças sozinhas em casa, não importa o tamanho, sempre dava algo errado quando a mãe ficava fora.

Mais uma vez, ele pega o telefone. Dessa vez intencionado a falar com um dos dois guitarristas do Iron Maiden, Dave Murray:
_ Dave! Olá.
_ Se for algo relacionado a um b...
_ Clive já espalhou é?
_ Sim.
_ Droga. - disse Paul, vigiando o visitante, que estava deitado em um dos tapetes do banheiro.
_ Olha, eu tenho irmãos. Sei como isso deve ser barra pesada. Quer que eu faça algo?
_ Na verdade eu estou precisando de fraldas e algo que possa vesti-lo.
_ Ele ou ela? - perguntou Dave.
_ É ele, definitivamente. - Di'anno se sentiu aliviado por ter ajuda.- Dave, por que não traz Adrian com você?
_ De jeito nenhum Paul. Ele mal se juntou à banda, ele não merece isso. Bem, chego aí num instante.

Dave Murray era como um super herói. Logo que o sol não irradiava mais nenhuma luz no céu londrino, o salvador da pátria chega á casa de Paul. Nunca ele imaginaria que Murray sabia lidar com bebês. Ele ainda tinha passado na casa da mãe para fazer perguntas rápidas. "Só fiz isso porque não quero o nome da banda envolvida em nenhuma acusação. Se acharem o moleque em boas condições não vão encher o saco nunca mais", explicava Dave.

Enquanto Paul se virava para alimentar o pequeno 'intruso', Dave ligou o rádio e mudava de estações freneticamente, até que parou de funcionar. As pilhas se esgotaram. Suspirando alto, foi em direção à televisão e a ligou. Ficou exatamente cinco minutos ocupado com as antenas, até que finalmente encontrou o canal policial. Uma mulher tinha sido presa. Tabloides e repórteres explicavam tudo.

Literalmente, história de novela. Duas mulheres eram amigas, uma se casou antes da outra, teve um filho, e tomada pela inveja sequestrou a pobre criança. Acharam a culpada mas não o menino. Paul Di'anno estava quase berrando que tudo combinava com o caso dele. Dave pediu um momento, até mostraram uma foto e mais alguma coisa que facilitasse a indentificação. O bebê tinha três dentes nascendo, alguns fios avermelhados de cabelo e seu nome era Alek.

Com pouco cuidado, Di'anno abriu a boca da criança e contou exatamente três dentinhos:
_ Dave! É ele! Eu sei! É o mesmo da fotografia.
_ Não tenho certeza ainda.
_ Não?!
_ A caixa onde você o achou, onde está? Deve ter algo com o nome por ali.
_ Cara, fala sério. - Paul pisou forte até a caixa e sacudiu-a. - Tem uma chupeta encardida aqui.

No objeto encontrado havia escrito "A...". Não tinha mais como duvidar que o bebê encontrado por Di'anno era o tal Alek. Ele não queria chamar a polícia porque os oficiais não gostavam dele. Dave achava tudo aquilo uma frescura, porém não queria o nome dele em nenhum jornal por causa de um bebê babão perdido.

Mesmo com objeção de Dave, sobrou mesmo para o mais novo membro da banda, Adrian Smith. Paul abreviou todo o episódio, e implorou para que ele tomasse Alek nos braços, fosse até uma estação policial. Foi dito e feito. Infelizmente, um reporter o esperava na saída, surpreendendo o tímido Adrian. De acordo com o combinado, o segundo guitarrista recitou a versão criada por Paul:
_ Bem eu ... eu encontrei o menino dentro da caixa e, um amigo meu veio e me ajudou.
_ Qual o nome do seu amigo, para que Londres se sinta grata a ele também? - perguntou o repórter.
_ Ele se chama Steve. Steve Harris.

Da esquerda para direita; Dave Murray-Clive Burr-Paul Di'anno-Steve Harris-Adrian Smith

Graféas

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Menina da perna quebrada

Angus Young e sua esposa Ellen chegaram de viagem exaustos. O funeral na Austrália fora deprimente. Ninguém esperava uma tragédia como aquela, perder um grande vocalista na crista da onda de sucesso do álbum Highway To Hell. Ele e os outros membros do AC/DC não conseguiam engolir o acontecido. Queriam desistir da banda. Angus tragava cigarros e mais cigarros, sempre com os olhos abaixados. Ellen demonstrava todo o seu carinho para consolá-lo.
_ Merda. - dizia ele.
_ Não dá pra desfazer querido.
_ O grupo não pode seguir sem Bon.
_ Você se lembra da conversa com a mãe dele? - Ellen falou, abraçando-o.
_ Claro, seria desejo dele que continuássemos...mas, não consigo colocar ninguém no lugar de Bon Scott.

O baque foi maior para Angus, pois mal tinha se casado com Ellen. A felicidade desmoronou como um barraco velho na enxurrada. Aquela sensação cinzenta perdurou por mais de um mês. Angus tomou coragem para colocar a banda de novo nos trilhos. Um dia levou Ellen para um jantar com seu irmão Malcolm e sua repectiva esposa. AC/DC não podia parar. Decidiram que logo que possível fariam audições para um novo vocalista. O encontro pelo menos dissipou a aparência de bagre no rosto de Angus.

Era tarde da noite quando dirigiam de volta á casa onde moravam. Angus estava ao volante, e por alguns segundos encantou-se com sua Ellen, dormindo ao lado. De repente, pisou forte no freio, sem resultados. Bateu em algo e arremessou-o no asfalto. A primeira sensação foi de desespero:
_ Ah, caralho! - gritou Angus. - Ellen, você está bem?
_ Meu pulso esquerdo está doendo...O que aconteceu?
_ Acho que atropelei alguém.

Um gemido alto de dor ecoou da calçada inóspita. O guitarrista correu até o alvo de sua distração. Era apenas uma garota, não passava dos 15 anos talvez. Visivelmente alterado, perguntou:
_ Já experimentou olhar a rua antes de atravessar?
_ Você quase me matou!- esbravejou ela - Minha perna, não consigo mexê-la.
_ Não saia daí, vou encostar o carro.
_ Idiota, não tem como eu sair daqui.

Angus fingiu que não escutou a última fala, e em pouco tempo conseguiu convencê-la a entrar no veículo. Ele dirigia impaciente, respirando alto, como se fosse explodir a qualquer momento. Ellen mantinha uma das mãos no colo, para imobilizar seu pulso, e a outra auxiliava a desconhecida, rosnando de dor. Seu nome era Isobel, e tinha apenas 14 anos. Fugia de casa, e sua mochila continha o mesmo tanto de roupas que os membros do AC/DC levavam em viagens de 5 meses.

Esperaram até ás 3 da madrugada para que Isobel fosse devidamente examinada e engessada até acima do joelho direito. Mesmo após diálogos mal encarados com o artista, a jovem chegava a petrificar diante dele. Ellen sussurrava ao marido que sua identidade já não era segredo para a infortunada menina. Angus não dava a mínima, queria apenas pegar um cigarro. Foram ao saguão do hospital para acertar outros detalhes:
_ Hei, pode me dar um? - disse Isobel, observando o maço.
_ Sua mãe sabe que você fuma? - Angus hesitou antes de acender um a ela.
_ Minha mãe é uma vaca. - respondeu, dando sua primeira baforada.
_ Por que uma vaca?
_ Está saindo com outros caras sem meu pai saber.

Ellen escutou o resto da história no caminho de casa. Isobel foi junto pois não tinha aonde ir. Seu ônibus já havia partido, e naquela cidade as passagens eram difíceis de se conseguir. A estadia da garota não era algo que agradasse Angus, mas estava tão catatônico diante da morte de Bon Scott que ele precisava de algo que o fizesse acordar, sentir qualquer coisa além do vazio. Semanas se passaram e Isobel permaneceu por lá, se recuperando.Os dias nos quais a banda não se reunia para audições e entrevistas, Angus Young voltava para sua casa, e por vezes fumava com Isobel na varanda.

Faltava uma semana para retirar o gesso da perna, mas o que Isobel menos queria era esperar. Naquele ponto nem parecia que certo tempo atrás, a pessoa que no momento a acolhia em sua casa, fora antes o causador da fratura. Isobel passava por problemas em casa. Não queria mais viver com um pai ausente, nem uma mãe mentirosa:
_ Pra que diabos você quer ir para Amsterdã?
_ Minha prima mora lá, essa droga de cidade é muito calma para mim. A Holanda não presta.
_ Eu gosto daqui. - comentou Young, exalando fumaça pela boca.
_ Por que você veio morar aqui? - Isobel perguntou, derrubando suas muletas no chão.
_ Bem, primeiro porque Ellen é daqui. Segundo...essa calma que você não suporta, eu aprecio.
_ AC/DC vai ter outro vocalista não é?
_ Acho que vai. - o músico respondeu fazendo uma careta.

Ellen e Angus acompanharam Isobel á estação de ônibus. Foi presenteada com algumas blusas e mandou emoldurar uma fotografia de lembrança. Agradeceu também a paciência do casal. Ellen queria que mandasse cartas e Angus permaneceu calado. Quando o motor ligou, Isobel grita da janela:
_ Angus!
_ Fala pestinha.
_ Eu quero a primeira cópia!
_ Do que está falando?
_ Do álbum que você vai gravar com Brian Johnson! - a partir dali o ônibus se distanciou e Angus só conseguiu pensar no quanto estava bravo por saber que ela escutava as suas conversas de telefone. Brian Johnson se tornou o novo vocalista do AC/DC e a banda começou a gravar em maio daquele ano.


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Vizinhos Barulhentos

Eu morava em um prédio ao lado de um hotel velho. Minha avó vivia comigo e eu já estava mergulhada na 
 faculdade. A vida em Nova York realmente era perfeita como diziam. Havia me mudado há um mês apenas e me adaptei muito fácil. O único problema era aquele velho hotel. Minto, o problema não era o hotel, mas sim a gritaria constante que vinha de lá. Eu e vovó éramos vizinhas de quinto andar com um dos quartos . Logo aquele de onde vinha tanto barulho.

O que me deixava ainda mais intrigada era o fato de minha querida avó não se queixar como eu. Não duvido de sua audição pois nenhum outro morador do prédio foi reclamar. Poxa, todas as noites eu fazia um sacrifício imenso para dormir e todos ignoravam gritos, risadas, garrafas se quebrando, televisão ligando e desligando, e mais um milhão de coisas. Me perguntava porque ninguém tirava satisfações com os ocupantes do quarto, e há quanto tempo aquele alvoroço era rotina.Tentei ficar de plantão na janela, na esperança de ver algo que fizesse sentido. Na segunda vez, bingo!

Um casal era culpado pela desordem. O homem, bem magro, alto, cabelo castanho com espetos. A mulher, loira de spray e roupa incrivelmente vulgar e ultrapassada. Só podia ser mentira. Como o dono do hotel permitia aqueles animais lá dentro?  Antes de chamar a polícia, fui atrás de algum funcionário para explicações na manhã seguinte. Relatei minhas noites mal dormidas para o recepcionista sardento, e ele estava rindo. Negou tudo que eu disse. Os poucos hóspedes do estabelecimento dormiam como anjos. Me afirmou também que ninguém nunca quis ficar com o quarto de número 100, do quinto andar. Pedi então que ele me acompanhasse até lá, era simplesmente um absurdo negar que aquele espaço estava vazio. 

Lá mesmo eu tinha como provar vestígios do casal briguento. A cama desarrumada, sofá virado, mancha de vinho no tapete, e cacos de vidro no chão. As faxineiras foram chamadas e assustadas afirmaram que o quarto fora arrumado uma semana atrás. As câmeras de segurança no hotel não registraram nenhum civil entrando ou saindo de lá nos últimos 7 meses. Isso me assustou. Escalar o edifício até o quarto seria uma façanha impossível de ser realizada, portanto não deixando nada além de mistério na cabeça do recepcionista e na minha.

Na mesma madrugada avistei os dois lá dentro novamente, desfazendo a cama, e trocando palavrões sem parar. O rapaz falava esquisito, como se fosse britânico. A moça fazia meus miolos estourarem de tanto exclamar um nome, talvez o de seu companheiro. Virei o rosto para tentar captar os nomes, com sucesso. Finalmente eu poderia voltar ao hotel para pegar os dois espertinhos que me tiravam do sério. As folhas da lista de hospedagem foram passando e nada! Haviam alguns Sid, algumas Nancy mas nada registrado como Sid & Nancy. Buscaram um copo d'água para mim. 

Minha decepção era tão grande que me senti febril. O porteiro, um senhor rouco de idade, sentou-se ao meu lado. Ele me perguntou se eu queria ouvir uma história. Eu fiz que sim. O caso, de acordo com ele próprio, era verdadeiro e se passou ali mesmo no hotel. Cortando a parte do 'era uma vez' e outras enrolações, o importante é que na década de 70, o movimento punk dominou a juventude e trouxe a Nova York o ex-baixista da banda Sex Pistols e sua namorada. Passado um certo tempo, num dos quartos do hotel, eles se drogavam, bebiam e brigavam tanto que um dia amanheceu com a garota morta no banheiro devido a uma facada na barriga. Pouco tempo depois, o cara também morre, na casa da outra namorada que arranjou. Uma maldita overdose.Trêmula, deixei cair o copo. 

O porteiro sabia que algo estava errado comigo, e percebi o mesmo. Um monte de coisas da minha infância fizeram sentido num clique. Podia escutar e ver mortos. A presença espiritual do casal arruaçeiro era tão forte que suas almas permaneceram no hotel por todos aqueles anos. Eu estava sendo incomodada por defuntos. Não tinha a mínima ideia do que fazer quanto a isso. Ou eu fingia que nada estava acontecendo comigo, ou tentava resolver o problema. Infeliz escolha a minha. Paguei uma noite dentro da edificação, para tentar contato. O único que consegui foi uma garrafa no rosto. 

Tinha sangue escorrendo da minha testa. Sid falava que fizera uma burrada, e Nancy gritava seu nome, reprimindo-o pelo o que fez comigo. A energia e capacidade dos dois era forte demais para mim. Saí correndo para um hospital, e em menos de uma semana vovó e eu nos arranjamos em outro apartamento, longe dali. Não demorou muito até eu voltar para umas visitinhas. Era irresistível me arriscar para outras conversas com Sid & Nancy, a prova de que o amor mata e de que garrafadas podem matar também, só que de curiosidade.


Graféas